GRAVEL Zone Brasil / Bike Hack - Experimentando e desafiando o que dizem (ou não dizem) as grandes marcas de componentes de bicicletas

Câmbio de 10 velocidades com transmissão de 11, pinças de freio de MTB na Gravel bike, correntes de duas diferentes marcas misturadas e mais "sandices" que funcionam perfeitamente.


O GRAVEL Zone Brasil mantém uma bicicleta de testes permanentes que preferimos batizar de Bike Laboratório, ou Bike Lab para os íntimos. Nosso intuito com uma Gravel Bike de laboratório é testar conceitos que a documentação das grandes marcas, como Shimano e SRAM, ignoram ou desaprovam, mas que na prática podem funcionar de maneira excelente. A ideia é sempre usar componentes acessíveis e estender nossa experiência a outros "graveleiros" de modo a facilitar a vida de cada um dos leitores no momento de montar sua bike ou fazer upgrades.


Atualmente nossa Bike Lab é uma Diamondback Haanjo 3, cujo quadro ano 2018 foi adquirido novo no eBay por 300 Dólares (cerca de 1.300 Reais). A Haanjo tem quadro em alumínio e um garfo do mesmo material, mas surpreendentemente leve. A bike é também compatível com rodas 650B (27.5") e suporta pneus até 700x45 ou 27.5x2.1, além de freios do tipo flat mount. De acordo com a fábrica, a opção pelas gancheiras tradicionais em detrimento dos eixos passantes pode gerar uma economia de até 300 Dólares no preço final da bike, raciocínio que transportado ao mercado brasileiro explicaria, por exemplo, o porquê da Audax Ventus 1000 Adventure custar mais que uma Sense Versa. A Diamondback Haanjo 3 é um modelo versátil, com uma geometria mais para o Adventure do que para o Race, ainda assim é rápida e vai bem tanto na terra, quanto na estrada.

Para começar a equipar a Bike Lab do GRAVEL Zone Brasil, partimos dos componentes que, após vários upgrades, foram sobrando de nossa bike de competição.

Os trocadores disponíveis em nossa garagem eram os RS-505 da Shimano com manetes de freio hidráulicos. Lembrando que em nossa opinião vale muito mais a pena montar freios hidráulicos em sua Gravel Bike, mesmo se você tiver que escolher uma transmissão menos top, tipo Tiagra, do que, por exemplo, usar câmbios Ultegra com freios mecânicos, por melhor que sejam eles, a diferença no desempenho de frenagem é brutal, da mesma forma que em longos pedais os freios hidráulicos são muito menos desgastantes para o piloto.


O pedivela na Bike Lab é um Shimano 105 FC-5800 montado com uma coroa oval única Wolf Tooth Drop Stop de 42 dentes, que também tínhamos aqui parada. O grupo Shimano 105 é longe o de melhor custo-benefício-peso da marca japonesa, com a tecnologia dos grupos mais caros e um peso consideravelmente menor que dos grupos mais baratos, fato que se nota principalmente nos pedivelas. Vamos dar um exemplo, nosso pedivela Shimano 105 Hollowtech II de 170mm, sem as coroas, pesou 535 gramas, tínhamos um modelo similar, o FC-4700 da linha Tiagra, que também sem coroas pesava 660 gramas, uma diferença de mais de 20% e esse número cresce à medida que vamos baixando de linha.

A escolha dos componentes.


Começando pela transmissão, já que nossos trocadores Shimano são de 11 velocidades, buscamos o câmbio traseiro mais barato que fosse compatível com eles. A lógica comum diria que teríamos que optar pelo 105, contudo o segredo relativamente escondido da linha Tiagra 4700 é que a puxada de cabo para a cual esse câmbio traseiro de 10 velocidades foi desenvolvido é exatamente a mesma dos câmbios de estrada de 11 velocidades da gigante japonesa, sendo assim, o câmbio traseiro Tiagra da série 4700 de 10 velocidades é perfeitamente compatível e pode ser montado com trocador da mesma Shimano e cassette, ambos de 11 velocidades. Na via contrária, nosso fiel leitor Luiz Fernando Fernandes montou um câmbio Ultegra RX de 11 velocidades com trocadores Tiagra 4700 e cassette de 10 velocidades, o conjunto também funcionou bem, provando que a antes criticada linha Tiagra 4700 é na verdade a coringa da Shimano.

Encontramos um câmbio traseiro Tiagra 4700 usado e bem barato, então era hora de escolher o cassette para complementar nossa transmissão. A Shimano, que é bastante conservadora em sua documentação, nunca divulgou que o câmbio traseiro dessa série pode ser associado a cassettes com pinhão maior de até 36 dentes com toda segurança e sem qualquer adaptação, entretanto uma relação 42x36 seria pesada demais para as pirambeiras mais fortes que existem por aí, o negócio seria apelar para um cassette 11-42, assim teríamos a marcha mais leve com a razão de 1 para 1 (coroa 42 e pinhão maior 42), em nossa opinião o mínimo necessário para um uso mais amplo de uma Gravel Bike. Optamos por um cassette Microshift 11-42 retirado de uma bike nova, um produto que também compramos por uma pechincha.


Cassette resolvido, esbarramos em outro problema, é que de forma nativa esse câmbio traseiro não tem capacidade suficiente para funcionar com um cassette de pinhão maior com 42 dentes. Muita gente não gosta, mas para aumentar a capacidade do câmbio traseiro Tiagra e fazê-lo trabalhar com um cassette 11-42 tivemos que lançar mão de um prolongador de gancheira. Um produto simples, originalmente desenvolvido pela americana Wolf Tooth, que depois foi super copiado e hoje está disponível em qualquer Mercado Livre da vida por um preço módico. Deixamos aqui dica: em geral o uso do prolongador de gancheira faz as trocas de marchas ficarem mais lentas, para minimizar esse comportamento indesejado, observe como os câmbios mais novos da Shimano foram projetados e monte o seu prolongador num ângulo de mais ou menos 30 graus em relação à vertical, isso deve resolver o problema dessa suposta lentidão.

Para completar a transmissão da Bike Lab do GRAVEL Zone Brasil, faltava uma corrente de 11 velocidades. Em nossa bike de competição, recentemente optamos por trocar a corrente KMC originalmente montada, depois de medir seu alongamento, ainda que estava com meia vida e teria alguns milhares de quilômetros pela frente. Pronto, era a corrente que iríamos usar na Diamondback Hanjo de laboratório, contudo o cassette 42 nos obrigaria a adicionar pelo menos 3 elos a essa corrente usada, por coincidência o mesmo número de elos que retiramos da corrente nova da outra bike. Você deve estar pensando, eles não vão montar uma corrente usada KMC com um pedaço de uma corrente nova da SRAM. Advinha? Sim, nós juntamos as duas, ambas de 11 velocidades. Você também deve estar pensando que normalmente uma corrente usada não "casa" com um cassette novo e isso é verdade, só que nossa corrente KMC não estava tao detonada e resolvemos arriscar com ela mesma. Já posso adiantar que demos sorte, nenhuma marcha pulando, ou qualquer comportamento estranho por conta dos poucos elos de outra marca trabalhando juntos. De todas as maneiras, aqui vai outra dica valiosa: sempre que tiver que emendar dois pedaços de corrente, use um "missing link", na verdade dois, um em cada ponta do grupo de elos adicionais que você vai eventualmente montar, só assim a corrente como um todo vai aguentar o torque da sua pedalada, caso apenas reaperte um pino que já havia sido removido antes, a probabilidade dele arrebentar num momento de maior esforço é enorme.



O Desempenho.


Na prática essa transmissão "Frankstein" funcionou maravilhosamente, com trocas de marchas rápidas e precisas, entretanto nem tudo são flores. Mesmo usando uma coroa do tipo "narrow-wide", específica para reter a corrente em transmissões 1X, o câmbio Tiagra 4700 não gera a tensão suficiente para evitar que a mesma corrente caia da coroa em situações de muita trepidação, o fato dela ser mais longa ainda agrava esse problema. Para resolver, recomendamos um tensionador de corrente, como aqueles que a gente vê em algumas bikes de enduro e DH, para ter certeza que funcionaria, improvisamos um e de fato demos adeus às quedas de corrente.



Mas e os freios?


Nossas pinças de freio hidráulicas originais ou calipers, ficaram em na bike de competição do GRAVEL Zone Brasil, sendo assim, seguindo a mesma lógica do resto da montagem da Bike Lab, precisávamos encontrar novos calipers, eles teriam que ser baratos e eficientes, aqui com um agravante, o quadro da Diamondback Haanjo já conta com o padrão de freios mais moderno para bikes de estrada, o flat mount e não os tradicionais post mount, estes últimos também utilizados nas mountain bikes. Vasculhando o mercado, optamos pelos calipers Shimano MT-400, sim, é um modelo de pinças para mountain bikes, mas não se engane, funcionam normalmente com os STIs da marca. São post mount, mas nada que não resolvam um par de adaptadores simples e acessíveis para o padrão flat mount. A performance dos manetes RS-505 trabalhando em conjunto com os calipers MT-400 é das melhores, com ótima modulação e força de frenagem mais que suficiente para uma Gravel Bike.



Faltou alguma coisa?


Para montar 2 caramanholas de 1 litro dentro do triângulo dianteiro de uma maneira funcional, apelamos para o Topeak Alt-Position, um acessório simples, capaz de reposicionar os suportes de caramanhola. Em caso de interesse, já falamos sobre ele anteriormente (https://www.gravelzone.com.br/2019/12/gravel-zone-brasil-configuracao-como.html).


Finalmente você deve estar se perguntando sobre o canote que usamos nessa bike, é um Cane Creek Thudbuster ST, mas isso é assunto para um outro post.

E você?


Todas as soluções adotadas na Bike Lab do GRAVEL Zone Brasil foram testadas e aprovadas antes de compartilhar com nossos leitores. Você tem outros "bike hacks" que podem ser interessantes aos proprietários de Gravel Bikes, então deixe seu comentário e conte para a gente.

Keep Gravel Riding!

Comentários

  1. Valeu a menção Adil. Estou satisfeito com a transmissão mas vou logo migrar para 11v e freios a disco hidraulicos 105.

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  2. Legal essa Gravel Lab Adil. Valeu por compartilhar suas experiências

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  3. Excelentes comentários sobre as combinações shimano. Consegui um STI Tiagra 4600 e queria saber se ele é compatível com um cambio traseiro Altus de 9v !

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    1. Obrigado por acompanhar o GRAVEL Zone Brasil, a resposta é sim, vai funcionar porque a puxada de cabo nos trocados Shimano de Estrada de 10 velocidades (excluindo o Tiagra 4700) é a mesma dos câmbios de MTB de 9 velocidades da marca.

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    2. Muito obrigado Adil. Vou buscar um cassete 11x36, disponível para 9v e 10v. Será que consigo usar o cassete de 10v ?

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    3. Sim, podeupode usar cassete de 10v.

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  4. Cara, que baita materia .... me diz uma coisa, tenho um grupo completo Tiagra 4700 com cassete 11x36 ..... tem alguma forma de eu colocar um cassete 11x42 trocando por algum cambio ou usando um prolongador ???

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    1. Olá,

      Obrigado por acompanhar o GRAVEL Zone Brasil. Na verdade tudo que você precisa é de um prolongador se quiser seguir usando o mesmo câmbio com o cassette 11-42.

      Qualquer dúvida é só escrever.

      Abs!

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    2. prolongador ou o tal do "got link" ??? tenho certa preocupação com o prolongador empenar com facilidade, sera que ocorre ? So ando no estradão ... nada de trilha

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    3. Fique tranquilo, nunca vi um prolongador empenar, além do que custa muito menos que um Goatlink ou Roadlink da Wolf Tooth.

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    4. Adil, tenho lido e me surgiu uma duvida .... Qual o modelo de prolongador foi usado, tava pesquisando tem MUITOS modelos diferentes.

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    5. Pode usar um prolongador genérico, desses que são fáceis de encontrar no Mercado Livre ou Ali, não tem segredo.

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